O agente secreto do filme "O Agente Secreto"

janeiro 18, 2026


Finalmente tive a oportunidade de ver no cinema o novo filme de Kleber Mendonça Filho, filme que está na boca e nos corações dos brasileiros que amam a arte e a cultura produzidas em nosso País. Os prêmios em Cannes e em Los Angeles (Globo de Ouro) foram mais que merecidos.

O Agente Secreto é um filme que se abre para 1001 interpretações nos mais variados campos do saber humano: história, política, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia...

No Youtube existem alguns bons vídeos com análises assentadas nessas ciências buscando decodificar o filme, notadamente no seu aspecto histórico-político. Não vou cair na tentação de dizer mais do mesmo, se procuram uma explicação para o filme nessa linha de interpretação vejam os vídeos no Youtube e tirem suas próprias conclusões.

Vejo O Agente Secreto especialmente como um filme de cinema, cinema que é o agente secreto infiltrado em todo o tecido narrativo do excelente thriller ambientado no Recife. 

Kleber Mendonça, como todo grande cineasta da década de 1960 para cá, é antes de tudo um cinéfilo, e deixa claro isso logo na abertura do filme quando o personagem Armando/Marcelo para num posto de gasolina para completar (encher) o tanque do fusca amarelo já na reserva.

Não por acaso o posto chama-se São Luíz, mesmo nome do cinema que povoou a infância e adolescência de Kleber, local onde ele abasteceu sua cultura cinematográfica através de incontáveis títulos que desfrutou no belo cinema, também um personagem importante do filme. 

O fato de centralizar grande parte da ação dramática no interior e ao redor, fisicamente falando, do cinema São Luíz reforça a opção narrativa do cineasta de basear na própria arte do cinema, e suas variadas manifestações, o seu instigante filme.

As referências ao cinema estão por toda parte e saltam aos olhos: numa das dependências do São Luíz onde se reúnem para gravar em fita K-7 um depoimento, vemos na parede as imagens de Oscarito, Marilyn Monroe e Grande Otelo. Na entrada do cinema os pôsteres anunciam os filmes A Profecia, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tubarão; na fachada um letreiro divulga: King Kong. No escritório do cinema vemos na parede dois pôsteres de filmes que de certa forma sintonizam com subtextos de O Agente Secreto: os amores clandestinos no Parque 13 de Maio e a dualidade Armando/Marcelo, também metaforizada na gatinha de duas caras na pensão/refúgio de Dona Sebastiana, personagem  interpretada pela amada ladra de cenas Tânia Maria. Os filmes a que me refiro são Perdidos na Noite (John Schlesinger, 1969) e Dois Homens Contra Uma Cidade (Joé Giovanni, 1973). Jean-Paul Belmondo e o marinheiro Popeye são outras presenças metalinguísticas no filme de Kleber. 

É escancaradamente cinematográfico o personagem Alexandre, sogro de Armando/Marcelo, que trabalha como projecionista no São Luíz. Alexandre é uma homenagem a um projecionista homônimo, verdadeiro, que Kleber referenciou em Retratos Fantasmas.

Se não bastassem as fotos, letreiros e pôsteres sublinhando a presença do cinema, a câmera penetra no interior do São Luíz durante a sessão do filme em cartaz, A Profecia (Richard Donner, 1976). A escolha desse filme não é aleatória, a trama também trata de mortes misteriosas, como as provocadas pela perna cabeluda na Recife mergulhada na sanguinária ditadura que completava 13 anos no poder. O medo é uma das armas dos regimes autoritários para manter a sociedade sob rigoroso controle, a imprensa sensacionalista amplifica esse medo com suas manchetes escandalosas onde a verdade não tem vez.

Nesse sentido, o filme-fixação, Tubarão (Steven Spielberg, 1975), que na luminosa sequência de abertura é fusionado com uma intrigante perna, permeia os pesadelos do menino, os pesadelos da comunidade praieira criada na diegese de Spielberg e os pesadelos da cidade do Recife permanentemente assombrada com o sufocante clima de repressão imposto pela ditadura. Há de se notar ainda que o personagem filho de Armando/Marcelo, portanto uma extensão biológica dele, só se livra dos recorrentes pesadelos com o tubarão quando finalmente consegue ver o filme até então proibido para a faixa etária dele, 9 anos. A metáfora é perfeita: o mal só pode ser vencido se você enfrentá-lo (Armando/Marcelo não enfrenta, tenta fugir e o resultado dessa fuga você vê no filme), essa construção me remeteu a Bacurau quando a população nativa, depois de muitas derrotas, decide enfrentar na bala os invasores. 

Um dos momentos mais impactantes, em termos de enquadramento e composição da imagem, é o belíssimo plano geral do centro do Recife visto por Armando/Marcelo a partir da janela do cine São Luiz. Não é só a reconstituição de época, brilhante por sinal, com os automóveis e ônibus elétricos dos anos 1970 circulando na ponte Duarte Coelho e os edifícios vestidos como no período histórico em que se passa a ação do filme, não. A beleza peculiar dessa imagem é justamente a dimensão cinematográfica que ela carrega, a câmera sai da sala de projeção do tradicional cinema de rua e se projeta no écran da cidade reconstituída cinematograficamente. É uma metamorfose poderosa, o filme dentro do filme, A Profecia exibida na tela do cinema, dá lugar ao emblemático plano geral do centro do Recife, é como se o cinema se libertasse da sala em que está confinado e se expandisse em magnífica pletora sobre toda a cidade.

Esse plano de estonteante encanto me fez lembrar uma sequência de Retratos Fantasmas, filme lançado por Kleber em 2023, sequência que não me sai da memória, quando o cineasta fala de uma cena de O Som ao Redor, filme que dirigiu em 2012, cena essa que se passa numa rua do bairro de Setúbal, Kleber diz que primeiro queria filmá-la com a iluminação noturna dela mesma, as luzes vindas dos postes. Depois ele mesmo se deu conta que não ficaria bom e resolveu iluminar cinematograficamente e a rua passou a ter a dimensão do cinema. É o mesmo que acontece com o Recife de O Agente Secreto.

Um parêntese: não vou fingir hipocritamente que não vi o imenso letreiro na fachada de um edifício na margem oposta do Capibaribe, à direita do cine Trianon, gritando: “Campina Grande”. Bairrismo, provincianismo e outros “ismos”, vejam como quiser o que importa é que a cidade está lá, projetada em larga escala para o mundo (sim, Pernambuco agora fala para o mundo como nunca), nos enchendo de uma indisfarçável alegria por ter o privilégio de figurar numa imagem, em exuberante widescreen-panavision, que muitas outras cidades dariam tudo para estar lá. Gil estava certo, apesar do inaceitável desastre ecológico no açude Velho, continuamos querendo ser Nova York.

O desfecho da trama, abrupto para alguns, com o desaparecimento do personagem central (que, insisto, não é o personagem central), visto apenas numa foto de jornal em preto-e-branco, confirma o que destaco nesta breve análise: o tema central é mesmo o cinema. Se não, como explicar o sumiço repentino de Marcelo/Armando e o filme prosseguir por mais 18 minutos, agora centrado no filho que diz com todas as letras que não tem nenhuma lembrança do pai, mas recorda com uma memória cristalina que viu o filme Tubarão de Spielberg, um desejo quase obsessão de sua infância, no cine Boa Vista, agora transformado na clínica de hemoterapia onde trabalha.

Essa constatação não elimina a importância de Armando/Marcelo que é o objeto principal do trabalho de pesquisa que tenta reconstituir sua trajetória e desvendar seu enigma feito pelas jovens pesquisadoras, inclusive uma delas dá um pendrive com todas as transcrições das falas de Armando/Marcelo para Fernando, o filho, e ele guarda o dispositivo no bolso com real interesse sinalizando que pretende recuperar essa memória do pai. Enquanto a memória de Armando/Marcelo é ainda um processo em investigação/construção, a memória cinematográfica que perpassa todo filme é algo consolidado, perene, é o cinema que permite que todos os acontecimentos narrados, pretéritos e presentes, sejam assimilados por todos.

O grande plano final com a clínica em destaque, e o letreiro trazendo a palavra sangue em vermelho profundo, denota claramente que o cinema, em toda sua amplitude, é o sangue que corre nas veias e faz bater forte o coração do agente secreto.

Confiram.

5 comentários

  1. Eu estava esperando por essa análise crítica e como sempre seu olhar surpreende sublinhando que O Agente Secreto não é apenas um filme, é o cinema brasileiro representado. Os projecionistas , filmes, cartazes, salas de cinema com nomes próprios e endereços, estrelas, cineastas, cinéfilos, público, bilheteria, distribuição, críticos, figurinos e uma infinidade de elementos indispensáveis que fazem o Cinema. Campina Grande lá na telona é um sinal que pede uma sala de cinema com nome e endereço. Rsrsrsrs Obrigada, Romero.

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  2. Ler uma resenha escrita por quem é do cinema, por quem cinéfilo é, por quem ama essa seriam arte é outra coisa. Nada escapa, todas as camadas são levantadas e postas à vista para quem queira tentar destrinchar ainda mais o que o filme nos dá a ver e problematiza. Valeu demais, prof. Romero, sempre certeiro. Da ode, pelas referências e alusões que complementam a trama, feitas pelo Kléber ao cinema, você nos dá uma ode à ode ao cinema e sua suprema magia.
    Obrigado.
    Forte abraço.

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  3. Romero Azevedo: grato por sua análise e por mostrar vários aspectos e dimensões cinematográficas sobre o Agente Secreto. Gostei muito do filme, principalmente, a referência de cinema de Kleber aos Irmãos Coen “Onde Os Fracos Não Têm Vez.”

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  4. O filme é para rever e rever, como esse texto é pra ler e reler.

    O “agente secreto” é o cinema? Ou a memória, que tentam apagar no filme e na vida tantas vezes, mas a danada insiste e resiste?

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  5. O texto de Romero é lúcido, lúdico, tecido com uma forma tão única que ao ler três ou cinco palavras eu já conheço. As vezes l, muitas vezes, passam frames que eu não percebo e eu corro para ele. Romero é dessas pessoas que já nasce escritor e o cinema por ser sua casa grande, ele sim, consegue fazer festa. Esses textos devem virar livro, ou livros, para no futuro, dominado por pobres( e podres) IAss , os humanos, os que restarem, possam entender que existiu vida inteligente por aqui.
    Sobre a crítica, sempre, a crítica de Romero me faz enxergar além do que conseguimos ver. Ele esmiuça, vai nas entrelinhas da percepção do sensível. Compreende, disseca e nos entrega de uma forma didática e poética o que não conseguimos enxergar. Mas porque? Ora, de fato, olhos não se vendem . Compre o ingresso e corram para cá. Boa leitura.

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