O titulo acima é do belo texto que o querido amigo, psiquiatra, homem da cultura e das artes, Edmundo Gaudêncio escreveu e nos enviou. Fala Edmundo!
“Retratos Fantasmas,
o deslumbrante documentário de Kleber Mendonça,
trazido a público por Romero Azevedo e exibido no Cineclube Memorial, como toda Obra de Arte, comporta o ver e o enxergar.
Vemos um lindo documentário.
Mas nele enxergo Baudelaire e Walter Benjamim.
Nele percebo três conceitos caros a Baudelaire, Benjamin e Kleber Mendonça:
Flaneur, Voyeur, Blasé:
Flaneur, flanar, passear; Voyeur, espiar; Blasé: deixar-se tomar pelo "spleen", pela melancolia que cedo dá lugar "ao não mais perceber". Claro: enorme diferença entre a Melancolia de Baudelaire e Benjamin: neles, a Melancolia era a tristeza do já perdido. Hoje, melancolia é depressão: estar-se triste pelo que se não sabe o que foi perdido, pelo não se saber onde estar ou aonde ir -- exatamente porque, no perdido, perdemo-nos nós -- sem que saibamos sequer o que denominamos de "nós"!
Kleber Mendonça, em Retratos Fantasmas, dá rosto a esse vazio:
onde antes cinemas, alegria... prédios tombados, casas vazias.
Vazios.
A memória necessita de suportes materiais: uma foto, por exemplo.
Esmaecida pelo tempo, nela não reconhecemos quem sorria.
O cinema é um guardião de memórias -- a cada vez em que um cinema é fechado, perdidas histórias: do filme exibido e das mãos dadas, dos enamorados, a que o filme assistam!
Em Retratos Fantasmas, o retrato de um fantasma e o fantasma do retrato:
o que é, já não é mais -- embora sendo!
Contra tudo e contra todos, o Cinema sobreviverá!
Porque estas as funções do cinema:
dar visibilidade ao invisível; tornar visível o dizivel; e inesquecível o que se poderia esquecer.
Em Retratos Fantasmas, a História Oral (matéria estudada pela mãe do Diretor) dá lugar à História Visual.
Filme melancólico, sem dúvidas.
Melhor: filme nostálgico (apenas para recordar a palavra inventada por um médico, Johannes Hofer que, em 1688, inventou essa palavra, neologismo composto por "nostos", lugar perdido -- e "algia", dor: a tristeza profunda de se não poder voltar jamais ao lugar de onde se partiu.
Entre nós, "banzo" - palavra africana derivada de "banza", casa de nascença. Tristeza de jamais poder retornar ao lugar onde a felicidade morou!
Toda beleza contém sempre melancolia, segundo Edgar Alan Poe:
No agora, o ontem; a ausência do ontem, no amanhã!
A Romero Azevedo, meu eterno agradecimento -- pela exibição de Retratos Fantasmas -- e por nos dizer que, sem ontens, jamais existirão amanhãs!
Fraterno Abraço”.
P.S. O filme “Retratos Fantasmas” estará disponível na Netflix a partir de 2 de novembro próximo. Confiram.

