Hamnet, um Filme com Poder sobre o Horror que Espreita a Terra
março 03, 2026A barra no planeta não está fácil. Os noticiários na Internet e na TV exibem 24 frames de terror por segundo. Não vivemos mais nas beiradas do apocalipse, estamos dentro dele.
Um filme, já disse aqui, não tem o poder de mudar o mundo, mas pode mudar você. Você sozinho também não pode mudar o mundo, mas pode mudar você mesmo, o que convenhamos não é pouco.
Hamnet de Chloé Zaho, Globo de Ouro de Melhor Filme e forte concorrente ao Oscar 2026 com 8 indicações, é um desses raros filmes produzidos hoje que podem mudar o modo como você enxerga e atua no mundo em que vivemos.
Uma das sinopses do filme diz: “A história de Agnes - a esposa de William Shakespeare - enquanto ela luta para lidar com a perda de seu único filho, Hamnet. Uma história humana e comovente que serve de pano de fundo para a criação da peça mais famosa de Shakespeare”, mas o filme é muito, muito mais que isso.
Parte do título dessa postagem vem de uma espécie de oração que Agnes (a irlandesa Jessie Buckley que concorre ao Oscar de melhor atriz e tem o meu voto platônico já que não integro a Academia de Hollywood) aprendeu com sua mãe quando criança. A oração, recitada 3 vezes em momentos distintos do filme, é feita sempre durante o preparo de um poderoso unguento que entre outras virtudes medicinais “tem poder sobre o horror que espreita a terra”. Esse vaticínio sobrenatural, essa forma de ler o mundo que está no âmago da obra de Shakespeare, é uma das pistas postas por Zhao para nos ajudar a ler o filme dela.
O mundo que chamamos de sobrenatural é um dos elementos recorrentes no teatro shakespeariano, fantasmas e bruxas habitam a cena e contracenam com os personagens naturais com uma intimidade desconcertante para os mais céticos (que não é o meu caso). Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia, diz Hamlet no Ato 1, Cena 5, da tragédia homônima.
Hamnet capta e traduz a atmosfera dessa fusão morte/vida, matéria/espirito, racionalidade/intuição com uma delicada compreensão das intenções do bardo ao escrevê-las. O filme também demonstra isso logo no início, na cena em que Will (Paul Mescal) conta para Agnes a história de Orfeu e Eurídice, e ela gosta do que ouviu.
Quem procura uma biografia da esposa de Shakespeare, ou do filho morto prematuramente, ou até mesmo do próprio William, o filme indicado não é esse.
Chloé Zhao não fez um filme do tipo based on a true story, mesmo porque a true story de Shakespeare até hoje não foi devidamente comprovada. É na verdade um filme-unguento (permitam-me a expressão) sobre a possibilidade de cura das nossas feridas, desde as físicas, como o corte na testa de Will, até as espirituais, como o doloroso luto pela perda do filho.
Um dos mais belos diálogos de Hamnet, pela simplicidade e profundidade, é travado entre Agnes e seu irmão Bartholomew (Joe Alwyn), ela lembra uma lição que a mãe deles ensinou e que diz para viverem com o coração aberto, que não o trancassem na escuridão, mas que o voltassem para o Sol. Isso é puro Shakespeare sem necessariamente ter sido escrito por ele.
Outro ponto de destaque no filme é a fotografia do polonês Lukasz Zal, o mesmo de Guerra Fria (2018) e Zona de Interesse (2023), não é uma fotografia contemplativa da paisagem ou dos interiores, é uma fotografia totalmente integrada ao que está diante da câmera. Duas cenas bastam para exemplificar isto: o parto na floresta e o casamento de Agnes e Will.
A edição do brasileiro Affonso Gonçalves (Carol e Ainda Estou Aqui), em conjunto com Zhao, opera em muitos momentos, especialmente na sequencia final, um distanciamento espaço-temporal, sublinhando a geografia do rosto humano e todas suas nuances, eliminando assim qualquer cronologia, o que possibilita tirar a ação do século 16 e instalá-la no tempo presente do século 21, tornando contemporâneo o seu significado.
O ponto de inflexão da trama é a morte de Hamnet (Jacobi Jupe), segundo filho do casal que nasceu gêmeo com Judith (Olivia Lynes); o primeiro filho é uma menina, Susanna (Bodhi Rae Breathnac). A morte do menino, na ausência do pai que se encontrava trabalhando com sua companhia de teatro em Londres e arredores, provoca um tsunami emocional na relação do casal.
As duas visões sobre a morte do menino se tencionam, Agnés tem uma reação orgânica, visceral, uterina (é mãe), William por sua vez encara a perda não como algo definitivo, mas possível de uma recuperação (é um artista).
A sequência final é arrebatadora, é o efeito prático do unguento que falei acima sobre as feridas da alma, sarando-as definitivamente. No interior do teatro lotado, microcosmo que metaforiza nosso mundo (o mundo inteiro é um palco, diz Jacques no Ato II, Cena VII, da peça Como Gostais), o luto é sublimado pela arte, deixando de ser um sofrimento interminável e passando a ser uma compreensão dos processos que regem a existência humana, tendo como símbolo a comunhão de mãos da plateia com as mãos do ator-Hamnet-Hamlet (Noah Jupe), quebrando poderosamente não só a quarta parede que separa o mundo da tragédia encenada no palco do mundo da plateia, mas num plano mais profundo, metafísico, extinguindo a separação entre a vida e a morte, penetrando além das três dimensões terrestres, atingindo a dimensão etérea do mundo dos espíritos. Nesse momento esplêndido, Agnes leva a mão ao coração tirando-o do escuro em que se encontrava e volta-o para o Sol libertador da compreensão. O silencio que resta é atravessado pelo doce riso de Agnes e Will celebrando o reencontro com Hamnet, essa reconciliação tem como força mediadora a arte, o teatro e o cinema selam o pacto instaurando a mais pura luz, sublime antidoto contra o horror que nos espreita hoje.
Confiram.


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