Cinema Brasileiro em Destaques nos Dez Melhores Filmes Vistos em 2025

janeiro 01, 2026


Mais um ano começando e nós publicando a tradicional lista dos 10 melhores filmes vistos no ano que passou. Diferentemente das listas desse gênero que privilegiam os lançamentos do ano findo, a nossa tem como critério de “lançamento” os filmes que vi pela primeira vez. Já falei anteriormente, e repito, que filme “novo” é todo filme que você não viu ainda, não é mesmo? Então esse é o critério da minha lista: filmes que vi pela primeira vez no ano findo, sem importar o ano em que foi produzido. A ordem da lista é apenas numérica, não quer dizer que o primeiro é melhor que o segundo nem o décimo é menos bom que o nono. Também é importante dizer que o fato da lista ter apenas dez filmes, quando na verdade vimos muitos outros bons filmes, muitos deles comentados aqui no blog, é somente uma convenção tradicional.O protagonismo do cinema brasileiro nesse ano de 2025 é digno de nota. Dito isto, vamos aos filmes:

Perto do Sol É Mais Claro - Brasil, 2025

Vi esse filme na 20º edição do Comunicurtas. É um tour de force do diretor Regis Faria juntamente com o seu pai, o lendário Reginaldo Faria. O filme trata de um tema universal: o humanismo, a vontade de estar vivo, mas não apenas estar respirando, vivo no sentido amplo, como lembra o poeta “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Num esmerado trabalho de câmera, direção e edição, Regis Faria consegue a proeza de fazer um documentário não documental, se é que consigo me fazer entender. O personagem central é o próprio Reginaldo Faria do alto dos seus 85 anos, um personagem real, com suas virtudes e suas falhas também, com suas capacidades e incapacidades físicas, com seus projetos ainda por fazer, seus amores, filhos e netos.

Enquanto O Céu Não Me Espera - Brasil, 2021

Também visto no festival Comunicurtas (uma importante janela para os filmes brasileiros). Produção amazonense dirigida por Christiane Garcia, é um filme daqueles de difícil realização técnica por causa dos cenários naturais sempre encharcados até a medula. Contudo isso não foi um obstáculo para a realização segura, firme, minuciosa de Christiane, que inclusive aproveitou com riqueza dramática o fato do corpo humano ser composto por cerca de 60% de água, ampliando o drama humano dos personagens que nesse mimetismo natural se expande pela paisagem. Se não bastasse essa sacada narrativa que abarca todos os elementos em cena, tem a participação sempre extraordinária de Irandhir Santos, um ator que traz em sua compleição físico-psíquica a incrível capacidade de mimetizar sua estampa com o cenário em volta, ora é um peixe, ora é um cipó, ora é um bicho da floresta.

Sambalanço, A Bossa Que Dança - Brasil, 2019

Roteirizado por Tárik de Souza e dirigido por Fabiano Maciel, este documentário apresenta no cinema a memória, até então invisível, desse importante movimento que dominou a cena musical nos anos 1950 e parte dos anos 1960, misturando samba, jazz e ritmos do caribenhos com forte conotação dançante. Nomes como o tecladista Ed Lincoln, o compositor e cantor Orlandivo, o músico João Donato, o baterista Wilson das Neves e outros, falam sobre esse criativo momento da música brasileira de grande empatia popular, mas sem a fundamentação teórica intelectual, vamos dizer assim, da Bossa Nova que surgiu no mesmo período.

Tudo Por Amor Ao Cinema - Brasil, 2015

Outro excelente documentário dessa vez abordando a vida e o trabalho de Cosme Alves Netto, personagem central da história do cinema brasileiro no campo da preservação e difusão de filmes cuja trajetória precisa ser conhecida e compartilhada. Cosme foi o diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro de agosto de 1964 até o ano de 1981. Foi preso e perseguido pela ditadura civil-militar e defendeu com amor e coragem o acervo da cinemateca ameaçado permanentemente pela repressão. A paraibana Iza Guerra, ex-esposa de Cosme, dá um depoimento no filme. Roteiro e direção de Aurélio Michiles. Disponível no Youtube.

Tombstone, A Justiça Está Chegando - EUA, 1993

Um daqueles neo-western que surgiram depois do tsunami dos chamados western-spaghetti que violaram o templo do sagrado gênero americano e pintaram e bordaram nas pradarias da Almeria espanhola à guisa de velho oeste. Os irmãos Earp, Wyatt, Virgil e Morgan, mais o grande amigo Doc Holliday (Val Klimer soberbo) se reúnem em Tombstone para tentar levar uma vida calma, sem sobressaltos. Ledo engano. O desafeto Johnny Ringo está por lá também e o conflito é inevitável. A saga do delegado Wyatt Earp é uma história real e já foi filmada mais de 20 vezes pelo cinema e pela televisão. Essa versão dirigida pelo ítalo-americano George P. Cosmatos, com roteiro de Kevin Jarre, dá novo folego ao gênero ao absorver criativamente influencias dos westerns europeus e reforçar os alicerces do gênero tido como “o cinema americano por excelência”. À parte isso, o filme tem um elenco de primeira que o qualifica como poucos.

Nouvelle Vague - França/EUA, 2025

Uma recriação vibrante, sem saudosismo, das gravações do filme Acossado de Jean-Luc Godard, obra seminal do movimento de renovação do cinema francês conhecido como Nouvelle Vague. O filme foi feito em 1959 e lançado em 1960, trazendo inovações revolucionárias não só na decupagem, atuação, diálogos, mas também na montagem. O diretor americano Richard Linklater reconstitui a atmosfera efervescente da Paris do início dos anos 1960, a movimentação dos jovens cineastas, a militância política associada à produção artística. A "nova onda" em marcha apresentando um novo cinema ao mundo.

The Last Movie Star - EUA, 2017

Burt Reynolds (1936-2018) é Vic Edwards um astro do cinema que enfrenta a curva descendente da carreira rumo ao ostracismo. O diretor, também roteirista do filme, Adam Rifkin trata de um tema de certa forma recorrente no cinema americano que aparece em obras como "Crepúsculo dos Deuses" e "Fedora", ambos de Billy Wilder, e "A Cidade dos Desiludidos" de Vincent Minelli. O sub tema do etarismo, assunto bastante em voga nesses obscuros tempos que vivemos hoje, está presente no filme e demonstra que é a causa da aposentadoria forçada de atores e atrizes nessa “máquina de moer gente” (tomo emprestado a frase do roteirista Damien Chazelle no filme "Babilônia", de 2022) que é o cinema industrial de Hollywood.

Valor Sentimental - Noruega, 2025

Roteiro bem construído, diálogos de gente madura, um elenco excepcional, que inclui os consagrados Stellan Skarsgârd e Renate Reinsve, compensa com sobra os 133 minutos investidos na contemplação do filme.Fotografia funcional integrada com a narrativa, trilha sonora sutil, edição surpreendente, direção, de Joachim Trier, que explora com maestria todos esses elementos em função da história narrada.

Foi Apenas Um Acidente - Irã/França, 2025

Embora tenha umas pontas soltas no roteiro (que não prejudicam muito o conjunto da obra), o filme do diretor iraniano, exilado na França, Jafar Panahi, trata, num tom de drama e comédia, de um tema bem presente neste século 21: as ditaduras e seus sistemas de repressão que incluem a abominável tortura. No caso é a ditadura da república islâmica iraniana. Interessante saber que um filme brasileiro de 1998, dirigido por Beto Brant, com roteiro do escritor Marçal Aquino, Ação Entre Amigos, trata exatamente do mesmo tema. A diferença é que no drama brasileiro não há dúvida sobre o objeto da ação e no iraniano há.

Sombras dos Ancestrais Esquecidos - União Soviética (hoje Rússia), 1965

Foi distribuído no Brasil com o título de Os Cavalos de Fogo . É um filme deslumbrante. Reconstituição de época, figurinos, direção de arte, cenografia, música de uma riqueza que só o cinema é capaz de misturar e  reproduzir. O roteiro de Ivan Chendej e Sergei Parajanov é baseado no romance homônimo, obra-prima do autor ucraniano (final do século XIX e início do século XX) Mykhailo Kotsiubynsky. Embora se trate de um filme de época, a cinematografia (fotografia/câmera e edição) é contemporânea e cria um instigante conflito entre o tema abordado e sua interpretação feita pela linguagem do cinema. Todo falado em ucraniano, esse drama dirigido pelo diretor russo Sergei Parajanov (também roteirista) é um dos mais belos e vigorosos filmes feitos na então União Soviética pós segunda guerra mundial.


Essa é a nossa lista do ano que findou, um feliz 2026 para todos com muitos filmes na retina.

Antes de encerrar, uma observação: Ainda não tive oportunidade de ver "O Agente Secreto" de Kleber Mendonça Filho.

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