Finalmente tive a oportunidade de ver no cinema o novo filme de Kleber Mendonça Filho, filme que está na boca e nos corações dos brasileiros que amam a arte e a cultura produzidas em nosso País. Os prêmios em Cannes e em Los Angeles (Globo de Ouro) foram mais que merecidos.
O Agente Secreto é um filme que se abre para 1001 interpretações nos mais variados campos do saber humano: história, política, sociologia, psicologia, antropologia, filosofia...
No Youtube existem alguns bons vídeos com análises assentadas nessas ciências buscando decodificar o filme, notadamente no seu aspecto histórico-político. Não vou cair na tentação de dizer mais do mesmo, se procuram uma explicação para o filme nessa linha de interpretação vejam os vídeos no Youtube e tirem suas próprias conclusões.
Vejo O Agente Secreto especialmente como um filme de cinema, cinema que é o agente secreto infiltrado em todo o tecido narrativo do excelente thriller ambientado no Recife.
Kleber Mendonça, como todo grande cineasta da década de 1960 para cá, é antes de tudo um cinéfilo, e deixa claro isso logo na abertura do filme quando o personagem central para num posto de gasolina para completar (encher) o tanque do fusca amarelo já na reserva.
Não por acaso o posto chama-se São Luíz, mesmo nome do cinema que povoou a infância e adolescência de Kleber, local onde ele abasteceu sua cultura cinematográfica através de incontáveis títulos que desfrutou no belo cinema, também um personagem importante do filme.
O fato de centralizar grande parte da ação dramática no interior e ao redor, fisicamente falando, do cinema São Luíz reforça a opção narrativa do cineasta de basear na própria arte do cinema, e suas variadas manifestações, o seu instigante filme.
As referências ao cinema estão por toda parte e saltam aos olhos: numa das dependências do São Luíz onde se reúnem para gravar em fita K-7 um depoimento, vemos na parede as imagens de Oscarito, Marilyn Monroe e Grande Otelo. Na entrada do cinema os pôsteres anunciam os filmes A Profecia, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tubarão; na fachada um letreiro divulga: King Kong. No escritório do cinema vemos na parede dois pôsteres de filmes que de certa forma sintonizam com subtextos de O Agente Secreto: os amores clandestinos no Parque 13 de Maio e a dualidade Armando/Marcelo, também metaforizada na gatinha de duas caras na pensão/refúgio de Dona Sebastiana, personagem interpretada pela amada ladra de cenas Tânia Maria. Os filmes a que me refiro são Perdidos na Noite (John Schlesinger, 1969) e Dois Homens Contra Uma Cidade (Joé Giovanni, 1973). Jean-Paul Belmondo e o marinheiro Popeye são outras presenças metalinguísticas no filme de Kleber.
É escancaradamente cinematográfico o personagem Alexandre, sogro de Armando/Marcelo, que trabalha como projecionista no São Luíz. Alexandre é uma homenagem a um projecionista homônimo, verdadeiro, que Kleber referenciou em Retratos Fantasmas.
Se não bastassem as fotos, letreiros e pôsteres sublinhando a presença do cinema, a câmera penetra no interior do São Luíz durante a sessão do filme em cartaz, A Profecia (Richard Donner, 1976). A escolha desse filme não é aleatória, a trama também trata de mortes misteriosas, como as provocadas pela perna cabeluda na Recife mergulhada na sanguinária ditadura que completava 13 anos no poder. O medo é uma das armas dos regimes autoritários para manter a sociedade sob rigoroso controle, a imprensa sensacionalista amplifica esse medo com suas manchetes escandalosas onde a verdade não tem vez.
Nesse sentido, o filme-fixação, Tubarão (Steven Spielberg, 1975), que na luminosa sequência de abertura é fusionado com uma intrigante perna, permeia os pesadelos do menino, os pesadelos da comunidade praieira criada na diegese de Spielberg e os pesadelos da cidade do Recife permanentemente assombrada com o sufocante clima de repressão imposto pela ditadura. Há de se notar ainda que o personagem filho de Armando/Marcelo, portanto uma extensão biológica dele, só se livra dos recorrentes pesadelos com o tubarão quando finalmente consegue ver o filme até então proibido para a faixa etária dele, 9 anos. A metáfora é perfeita: o mal só pode ser vencido se você enfrentá-lo (Armando/Marcelo não enfrenta, tenta fugir e o resultado dessa fuga você vê no filme), essa construção me remeteu a Bacurau quando a população nativa, depois de muitas derrotas, decide enfrentar na bala os invasores.
Um dos momentos mais impactantes, em termos de enquadramento e composição da imagem, é o belíssimo plano geral do centro do Recife visto por Armando/Marcelo a partir da janela do cine São Luiz. Não é só a reconstituição de época, brilhante por sinal, com os automóveis e ônibus elétricos dos anos 1970 circulando na ponte Duarte Coelho e os edifícios vestidos como no período histórico em que se passa a ação do filme, não. A beleza peculiar dessa imagem é justamente a dimensão cinematográfica que ela carrega, a câmera sai da sala de projeção do tradicional cinema de rua e se projeta no écran da cidade reconstituída cinematograficamente. É uma metamorfose poderosa, o filme dentro do filme, A Profecia exibida na tela do cinema, dá lugar ao emblemático plano geral do centro do Recife, é como se o cinema se libertasse da sala em que está confinado e se expandisse em magnífica pletora sobre toda a cidade.
Esse plano de estonteante encanto me fez lembrar uma sequência de Retratos Fantasmas, filme lançado por Kleber em 2023, sequência que não me sai da memória, quando o cineasta fala de uma cena de O Som ao Redor, filme que dirigiu em 2012, cena essa que se passa numa rua do bairro de Setúbal, Kleber diz que primeiro queria filmá-la com a iluminação noturna dela mesma, as luzes vindas dos postes. Depois ele mesmo se deu conta que não ficaria bom e resolveu iluminar cinematograficamente e a rua passou a ter a dimensão do cinema. É o mesmo que acontece com o Recife de O Agente Secreto.
Um parêntese: não vou fingir hipocritamente que não vi o imenso letreiro na fachada de um edifício na margem oposta do Capibaribe, à direita do cine Trianon, gritando: “Campina Grande”. Bairrismo, provincianismo e outros “ismos”, vejam como quiser o que importa é que a cidade está lá, projetada em larga escala para o mundo (sim, Pernambuco agora fala para o mundo como nunca), nos enchendo de uma indisfarçável alegria por ter o privilégio de figurar numa imagem, em exuberante widescreen-panavision, que muitas outras cidades dariam tudo para estar lá. Gil estava certo, apesar do inaceitável desastre ecológico no açude Velho, continuamos querendo ser Nova York.
O desfecho da trama, abrupto para alguns, com o desaparecimento do personagem central (que, insisto, não é o personagem central), visto apenas numa foto de jornal em preto-e-branco, confirma o que destaco nesta breve análise: o tema central é mesmo o cinema. Se não, como explicar o sumiço repentino de Marcelo/Armando e o filme prosseguir, agora centrado no filho que diz com todas as letras que não tem nenhuma lembrança do pai, mas recorda com uma memória cristalina que viu o filme Tubarão de Spielberg, um desejo quase obsessão de sua infância, no cine Boa Vista, agora transformado na clínica de hemoterapia onde trabalha.
Essa constatação não elimina a importância de
Armando/Marcelo que é o objeto principal do trabalho de pesquisa que
tenta reconstituir sua trajetória e desvendar seu enigma feito pelas jovens pesquisadoras,
inclusive uma delas dá um pendrive
com todas as transcrições das falas de Armando/Marcelo para Fernando, o filho,
e ele guarda o dispositivo no bolso com real interesse sinalizando que pretende
recuperar essa memória do pai. Enquanto a memória de Armando/Marcelo é ainda um
processo em investigação/construção, a memória cinematográfica que perpassa todo filme é
algo consolidado, perene, é o cinema que permite que todos os acontecimentos narrados, pretéritos e presentes, sejam assimilados por todos.
O grande plano final com a clínica em destaque, e o letreiro trazendo a palavra sangue em vermelho profundo, denota claramente que o cinema, em toda sua amplitude, é o sangue que corre nas veias e faz bater forte o coração do agente secreto.
Confiram.













