Homenagem de Alice a Caymmi comprova: como ela requebra bem
maio 04, 2026Quem não gosta de Dorival Caymmi bom sujeito não é. Alice Caymmi ama Dorival Caymmi, e traduz esse amor num disco lançado nesse 30 de abril, quando o lendário avô completaria 112 anos.
Das artes, a música é a minha preferida, cinema em segundo lugar. A música é como um filme que se projeta no grande écran do éter que nos circunda e alimenta, antes de chegar aos ouvidos a música vibra em todos os poros, células e átomos que nos compõe, isso já está provado cientificamente. Não vejo filmes todos os dias, mas não lembro o dia em que não ouvi pelo menos uma música, quando digo ouvir não me refiro a uma música tocando por aí que me chega aos ouvidos involuntariamente, não. É escolher, dar play, e me deleitar. Assim é.
Caymmi, o disco de Alice que escuto agora enquanto escrevo, tem 12 músicas. É uma seleção que abrange várias épocas das composições de Dorival, desde O Que É Que A Baiana Tem (1938), passando por Maracangalha (1955), até Modinha para Gabriela (1975).
Alice visita a obra de Caymmi sem saudosismo nem revisionismos, é uma interpretação marcante, uma batida muito pessoal, um neoclássico maduro, produzido por Iuri Rio Branco.
Acalanto, belíssima lullaby composta em 1942 para a primogênita Nana, ressurge agora como uma canção de ninar para o século 21, com seu potente contrabaixo/bateria numa contagiante levada reggae.
Esse clima alegre, dançante, popular, prossegue na Canção da Partida (1957), faixa que é impossível ouvir parado (eu não consegui).
Alice Caymmi tem um timbre vocal, que chamo empiricamente de leve grave aveludado, esse timbre é o elo genealógico com o avô, mas especialmente com a tia, a suprema Nana.
Eu Não Tenho Onde Morar, lançada originalmente em 1960, ressurge agora numa batida reggae, com toques de hip-hop, ressignificando a letra e convidando à dança.
O samba-canção Dora (1945) aparece hoje numa deliciosa versão abolerada, com toques de metais que evocam as orquestras de frevo do Recife, cidade onde o poeta conheceu a personagem e a reverencia.
Dois de Fevereiro (1957), canção em feitio de oração, ganha com Alice uma interpretação vibrante, sem perder a devoção e a admiração pela rainha do mar.
A capa do disco-foto de Luq Dias - me remeteu cromaticamente ao filme A Idade da Terra de Glauber Rocha, aquele azul solar, o vermelho-bordô, o laço branco, o gesto que avança firme com a mão empunhada, é coragem, é luta e libertação.
Alice, filha de Danilo, sobrinha de Nana e Dori, é carioca de nascimento, mas se você quer saber o que é que a baiana tem é só ouvir Caymmi, está tudo, e muito mais, lá.
Confiram.


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